FILIAÇÃO DO SINDIPETRO RJ À CONLUTAS
As 5 fábulas da Conlutas e as distorções do processo das assembleias

Como continuação do texto de análise do processo das assembleias, partindo de onde paramos, na primeira parte do texto, descrevemos as fábulas das narrativas que induziram o voto pela filiação, sobretudo por não ter havido debate nem igualdade de alcance de contraposições em todas as partes. Para mais detalhes, o primeiro texto pode ser acessado aqui: https://unidadeclassista.org.br/mundo-do-trabalho/filiacao-do-sindipetro-rj-a-conlutas-as-5-fabulas-da-conlutas-e-as-distorcoes-do-processo-das-assembleias/
Agora, nessa segunda parte, faremos uma análise de que mesmo métodos em tese democráticos, como assembleias, podem carregar vieses e distorções, a depender da forma como são conduzidos.
PARTE 2 de 2 – Sobre as distorções do processo das assembleias
Partamos do resultado global. À primeira vista, a superioridade numérica parece inquestionável: 736 votos favoráveis, 320 contrários e 105 abstenções. Vitória da filiação com cerca de 63% do total de votos, ou 70%, se desconsiderarmos as abstenções.
Mas é sempre válido aprofundarmos a análise, fazendo uma espécie de “raio-x” do resultado. Para tal, analisemos os resultados por bases, com algumas informações adicionais que o sindicato não revelou.
Na tabela abaixo, colorimos de vermelho as linhas em que os votos contrários foram vitoriosos, e de azul as que tiveram vitória da favorabilidade à filiação. Destacamos as 10 bases com maior votação. E trouxemos outros dados, a saber: Total de assembleias realizadas em cada base, percentual de votos de cada base em relação ao total e percentual de assembleias realizadas em cada base em relação ao total. Vejamos:

* o número de assembleias tem como fonte a página do Sindipetro – contamos as linhas da tabela de programação de assembleias, agrupando por base. Sendo que, para a linha única dos aeroportos (onde sabemos que houve n assembleias), subtraímos, do total de assembleias realizadas, informado na matéria do resultado, a quantidade das demais linhas.
O primeiro elemento interessante é que, das 10 bases com maior votação, a posição contrária venceu em 6, enquanto a favorável, em 4. No conjunto de bases menores, concentradas na última linha, também venceu o voto contrário.
O que salta aos olhos é a disparidade de votos em uma só base (aeroporto) em relação a todas as outras. Dos 736 votos contrários, 515 (aproximadamente 70%) se deram ali. É algo difícil de se explicar estatisticamente que uma base que responde por cerca de 10% do total de filiados tenha contribuído com mais de 54% do total de votos. O seu total de votos foi simplesmente 5,5x maior que o da segunda base com maior participação. Se a descrição não der a exata dimensão dessa distorção, vamos trazer uma visão gráfica da distribuição dos votos:

A explicação aparece claramente no dado de assembleias realizadas. O truque foi fazer quantas assembleias fossem necessárias para potencializar os votos em uma base que se tem maior influência. Somente nela, foram feitas 37 assembleias, num total de 116, pelo que pudemos apurar. Quase 1/3 do total. Todas em período de expediente, num local a 2 horas de distância do Rio de Janeiro, o que praticamente impossibilitou a presença de militantes opositores à ideia da filiação, portanto, sem debate real do tema. Somada essa quantidade às 19 realizadas no TEBIG, segunda base com maior número, e não por coincidência também inclinada ao voto favorável, chegamos ao total de 56 assembleias, ou quase 50% do total de assembleias em apenas 2 bases.
Percebam, aqui não estamos questionando o mérito da militância dos Petroleiros Socialistas (corrente sindical vinculada ao PSTU) em estabelecer lideranças reais e legítimas nessa base, e terem conquistado a confiança destes trabalhadores, que não têm nada com isso, não foram responsáveis pelos critérios e votaram conforme seus livres juízos. Por princípio, quanto maior o quórum de participação, melhor e mais democrático. O que está enviesado, na realidade, é a não uniformidade de facilitação de quórum nas demais bases. Novamente, que se considere a visão gráfica:

Em suma, façamos a consolidação de bases favoráveis e contrárias, dentre as 10 com mais votos, comparando as quantidades e médias de assembleias realizadas:

Ou seja, nas 4 bases alinhadas à posição de filiação, foi realizado o dobro de assembleias das 6 bases contrárias (70 contra 35). A média de assembleias por base, naquelas favoráveis, chegou a mais de 3x a média das contrárias (17,5 contra 5,8).
Sem querer menosprezar base alguma, pois todas têm seu valor inquestionável, mas apenas como um exercício estatístico, se retirarmos as duas bases com maior votação da totalização (uma inclinada para cada lado), o resultado hipotético seria:

Por fim, um outro dado significativo é o número atípico de abstenções (cerca de 9%), que indica um grau de dúvida acima da média, corroborando com nossa tese da primeira parte do texto, de que a circulação de ideias não foi suficiente para esclarecer totalmente a polêmica, gerando incertezas. No aeroporto, esse número chegou a quase 12%. Somando-se a isso o baixo grau de engajamento em diversas bases, infere-se que não havia maturidade suficiente para se correr com essa consulta, e a recusa em se fazer debates por parte do setor mais forte da diretoria trouxe consequências.
O resultado está dado, mas que fiquem registrados na memória os vieses e distorções. Estamos seguros que a categoria irá saber corrigi-los no longo prazo.