FILIAÇÃO DO SINDIPETRO RJ À CONLUTAS: AS 5 FÁBULAS DA CONLUTAS E AS DISTORÇÕES DO PROCESSO DAS ASSEMBLEIAS

Passado o processo das assembleias, é necessário um balanço cuidadoso do seu significado e das suas características, para que tiremos importantes lições enquanto categoria petroleira. Reconheçamos, “ao vencedor, as batatas”, como diria o mestre maior de nossa literatura. Venceram a batalha, porém aos moldes que eles determinaram. Pois conseguiram condicionar de maneira mais favorável a si o campo de batalha, bem como as narrativas e o alcance destas. De modo que agora nosso sindicato estará atrelado a essa entidade pelo próximo período.
Mas isso não nos exime de demonstrar distorções e desvelar discursos enviesados usados aos montes no processo de convencimento.
Afora os méritos dos conlutistas no seu êxito, há ainda falhas e insuficiências de nossa parte. Esse texto pretende contribuir também nesse sentido, de subsidiar os leitores com alguns elementos de análise que possam reequilibrar a disputa das ideias. Os contrapontos são sempre importantes, ainda que relativamente tardios, sobretudo diante de uma disputa em que a corrente mais forte da diretoria do sindicato se negou reiteradamente a realizar um debate. Talvez para evitar algumas verdades…
Deixemos a análise do resultado, com seus números e seu caráter, para a segunda parte do texto. Comecemos por essa parte: as fábulas da narrativa. Pois muitas vezes, é confabulando que se convence.
Sobre as fábulas
I – Fábula do Mundo binário
Nessa fábula, os conlutistas tentaram nos convencer que o mundo sindical é binário. Nessa estranha simplificação, só existiriam a CUT/FUP, de um lado, e a Conlutas, do outro. Então, quem não simpatiza ou se alinha com a CUT, necessariamente deve estar atrelado à Conlutas. E quem não está com a Conlutas, só pode estar mancomunado com a CUT. Nada mais falso. No mundo real, hoje, infelizmente, existem 14 centrais sindicais no Brasil. Essa fragmentação é uma verdadeira tragédia para o movimento sindical, pois praticamente inviabiliza a construção de lutas e campanhas unitárias nacionalmente. Hoje, cada central sindical acaba sendo identificada mais com determinado partido político do que com a nossa classe trabalhadora, que não se reconhece plenamente em nenhuma delas. Por exemplo, a CUT é a central hegemonizada pelo PT, a CTB pelo PCdoB, a Conlutas pelo PSTU, e por aí vai. A única saída possível para resolver tal problema é a realização de um Encontro Nacional da Classe Trabalhadora (ENCLAT), com ampla participação e profundo debate, para reconfigurar as Centrais Sindicais e poder desencadear a formação de uma representação minimamente unificada. Por enquanto, a realidade de abrangência de sindicatos filiados, por central, é a seguinte:
Posição Filiação Percentual
1 Sem filiação a Central alguma 50,4%
2 CUT 14,1%
3 Força sindical 8,9%
4 UGT 7,0%
5 NCST 6,4%
6 CTB 5,4%
7 CSB 5,1%
8 CGTB 0,7%
9 Pública 0,5%
10 Conlutas 0,5%
Fonte: https://www.agcommunicare.com/mapa-dos-sindicatos-no-brasil-17-373-entidades-dados-exclusivos-e-an%C3%A1lise-completa-2025
Ou seja, a Conlutas representa menos de 1% de sindicatos do país, e apenas isso já seria razão suficiente para demonstrar que ela não reúne condições para coordenar ações de luta nacionais. Mas calma, que piora…
II – Fábula da Conlutas plural
Uma linha de defesa que tem sido utilizada é que a Conlutas não seria aparelhada pelo PSTU, usando-se o argumento que 6 correntes do PSOL também atuariam nessa central. O que não mencionam, é que o PSOL é um partido complexo e heterogêneo, com dezenas de correntes internas. Portanto, se hoje há 6 correntes deste partido dentro da Conlutas, seguramente há uma quantidade algumas vezes maior do lado de fora. E o mais fundamental: Não é necessário que o PSTU domine 100% da Conlutas para estabelecer sua hegemonia. Basta ter conquistado maioria simples de 50% + 1, como no último congresso, realizado em abril deste ano. Isso é o sufuciente para assegurar vitórias em todas as votações de polêmicas.
III – Fábula do monopólio da luta
Neste mito, os conlutistas enchem o peito para falar que são os únicos de luta. Diante do cenário de total fragmentação da esquerda, até mesmo as estatísticas explicam tal equívoco. É sabido que há um enorme número de correntes políticas e partidos combativos no cenário nacional. Não faz sentido acreditar que a totalidade dos que lutam se encontra na central que representa 0,5% dos sindicatos. Isso seria assumir uma insignificância das próprias posições mais avançadas. Sim, conlutistas, existe vida e luta para além de sua bolha. É inconcebível achar que quem não está consigo é por pressuposto pelego ou traidor. Há lutadores classistas nas Intersindicais, na CTB e mesmo na CUT, apesar de estarem em minoria nestas duas últimas. E ainda, há muitas correntes e pessoas combativas não vinculadas a central alguma. Ou seja, retirando a propaganda por meio dos fatos, o que sobre dessa visão é presunção e autoproclamação. Política não deveria ser tratada como religião ou seita, em que o fiel considera somente a sua agremiação como a ungida. E nem como alquimia, onde se procura sempre a fração mais pura, dividindo e repartindo para eliminar supostas impurezas. Para não ficar no campo das ideias, vejamos os exemplos do que os conlutistas praticaram nos últimos anos no Sindipetro RJ. Dissenso e racha forçado na última gestão, a ponto de gerar 2 chapas na última eleição. Atropelos e divergências públicas profundas na diretoria atual durante este processo. Enfim, parece não terem entendido a questão da necessidade da unidade. Interpretam esse preceito como a sua organização sendo a única pura e correta, quando a unidade pressupõe alianças de diferentes, com diálogos não triviais e busca de consensos, num processo de luta. Exatamente o oposto da divisão sem fim que estão habituados! Em suma, é inegável que há muitos companheiros de luta na Conlutas, mas definitivamente, não são os únicos.
IV – Fábula da Revolução iminente
Se na primeira fábula nós mostramos a fotografia, aqui buscamos demonstrar o filme que a gerou. Pois há algo ainda não dito: A Conlutas não é somente pequena, ela está diminuindo! Ao longo de seus 20 anos, a prática sectária e polêmica dessa central fez muitos saírem. Apenas como exemplo, nos últimos anos saíram o MTST, o Sintrasef e o Andes. E isso não se deu por acaso. Citemos alguns casos de equívocos crassos cometidos por essa central: No golpe contra a Dilma em 2016, sua agitação e propaganda chamavam as palavras de ordem “Basta de Dilma” e “Fora todos eles”, com faixas e cartazes nas ruas, notas políticas e panfletos. Até hoje, por sinal, não reconheceram que aquilo se tratava de um golpe. Ainda, se animaram com a prisão do Lula, no contexto da Lava-jato. Não se trata de se eximir de apontar as críticas necessárias ao PT e seus respectivos governos. O problema é que, por trás dessas posições, naquele contexto, havia um sectarismo míope, que acreditava que com a saída do PT de cena, a revolta da população fatalmente conduziria uma esquerda revolucionária ao poder (no caso, eles). Nada mais equivocado, pois quem fazia o movimento de retirada do PT e fomentava todo o ódio nas massas era a direita e o imperialismo. Naturalmente, somos entusiastas da construção de um novo mundo, igualitário, sem exploração e sem classes, num horizonte socialista, e sabemos que o caminho passa por uma revolução. Mas nossa análise não indica que esta perspectiva está dada no curto prazo, pois, em muitos casos, estamos em uma conjuntura regressiva, que nos coloca mais na defensiva. Essas posições míopes se repetem, como no caso da Ucrânia, em que acreditam numa fantasiosa rebelião popular neste país capaz de desbancar o expansionismo russo de Putin e o fascismo de Zelensky ao mesmo tempo. E ao se posicionarem a favor da Ucrânia, patrocinando inclusive comboios para lá, acabam se alinhando (talvez não conscientemente) à OTAN e ao imperialismo dos EUA, que respondem pela gênese de todo o problema local.
Para não ficarmos em exemplos do passado, cabe sublinhar que o último congresso da Conlutas, realizado em abril deste ano, aprovou que a entidade deve estar em oposição ao governo atual. E aqui entramos na última fábula.
V – Fábula que prega a Independência… mas depende!
Proclamada aos quatro ventos, a tese da independência, que inclusive foi utilizada como nome da chapa nas últimas eleições, não se sustenta. Independente seria uma posição não atrelada e crítica diante do governo, mas que não inviabilizasse a eventual necessidade de somar forças com medidas progressivas. Na máxima que cunhamos na Unidade Classista, diante desse governo, “é preciso criticar sempre que necessário, mas avançar sempre que possível”. Porém, como explicado acima, essa não é a posição da Conlutas. Seu último congresso aprovou localizá-la explicitamente na oposição ao governo, calculando mal o resultado de “tacar pedra” como pressuposto, num cenário em que a oposição mais forte atual é a da extrema-direita, do bolsonarismo e do imperialismo. Além disso, com a maioria de sua composição dominada pelo PSTU, a Conlutas não pode afirmar-se verdadeiramente independente. Partidos de luta são sempre bem-vindos nas entidades, mas estas devem ser um palco de debates plural, com vários partidos, organizações, e pessoas sem filiação. E não um “puxadinho” de um só partido. Portanto, a Conlutas é de oposição, e não independente. E depende sim dos anseios de um partido específico.
Combinadas todas elas, as fábulas não param de pé diante de uma análise mais crítica. Os discursos inflamados e convictos podem ter convencido aqueles que não tenham tido acesso a essas análises, e aqui reconhecemos nossa falha.
Esperamos, agora, ter gerado mais reflexões, e aguardem, dentro em breve, a publicação da segunda parte do texto, em que analisamos os números, a natureza e os vieses do processo decisório!
Comitê de Base Petroleiros RJ