Trabalhadores em luta mostram que virar o jogo é possível

Caio Andrade – Coordenação Nacional da Unidade Classista

Crédito Foto: Federação Única dos Petroleiros (FUP)

2019 foi certamente um dos piores anos das últimas três décadas para a classe trabalhadora brasileira. Vimos, pela primeira vez na história, um representante da extrema direita chegar à presidência da república através das urnas e, com ele, um violento projeto de ofensiva total às liberdades democráticas, ao estado laico, aos povos indígenas, negros, mulheres, LGBT, movimentos populares, sindicatos, organizações de esquerda etc. Em suma, uma declaração de guerra à classe trabalhadora e demais setores oprimidos da sociedade, ou seja, a maioria da população brasileira.

Os graves equívocos dos setores hegemônicos na chamada esquerda, as sucessivas derrotas, as contrarreformas e, principalmente, os contínuos ataques do bloco político que hoje governa o país alimentavam premonições de um longo período de imobilismo e passividade por parte dos trabalhadores. Entretanto, parafraseando Paulo Freire, erram aqueles que veem no futuro o mero prolongamento do presente. Os ventos de fevereiro dão sinais de que o limite das humilhações impostas pelos capitalistas e seus fantoches políticos aos homens e mulheres que vivem do trabalho pode estar chegando. Quem diz, na prática, são as diversas categorias em luta neste início de 2020.

Após o governo federal ter anunciado a privatização do Dataprev e a demissão de 493 funcionários da empresa, os trabalhadores conseguiram, após 14 dias de greve, suspender temporariamente a decisão e abrir as negociações. Evidentemente, ainda não é possível falar em vitória. Mas a notícia não deixa de representar a chegada de algum oxigênio em meio ao ambiente sufocante que se instalou no país. Vale lembrar ainda que, enquanto tenta colocar na rua centenas de trabalhadores devidamente qualificados e com larga experiência na área previdenciária, Bolsonaro supera todos os limites do corporativismo e propõe a contratação de militares da reserva para trabalharem no INSS.

Em relação à Casa da Moeda, além do anúncio de privatização feito por Bolsonaro, os trabalhadores passaram a receber cortes salariais que chegam a 2 mil reais – o que, para alguns, representa a quase totalidade dos vencimentos! Como resposta, os moedeiros paralisaram por 24 horas a produção de selos, passaportes, moedas e cédulas na última segunda-feira (3). Além disso, a categoria fará nova assembleia para avaliar os rumos do movimento.

A Petrobras, uma das maiores empresas do mundo no ramo de energia, também está na mira de Bolsonaro, Guedes e demais entreguistas instalados Palácio do Planalto. Enquanto privatiza o sistema de distribuição da empresa, causando enormes prejuízos econômicos para o país, o governo reduz intencionalmente a produção interna de combustíveis para facilitar ainda mais a vida de grupos estrangeiros e penalizar novamente a população – que já sofre com uma política de preços totalmente injusta, voltada unicamente para os interesses do mercado.

Nesse contexto, além de descumprir o Acordo Coletivo de Trabalho dos petroleiros, o governo quer fechar a Fábrica de Fertilizantes Nitrogenados do Paraná (Fafen-PR) e demitir cerca de mil trabalhadores. Porém, a categoria reagiu e, desde sábado (01) vem realizando uma importante greve nacional, que já atinge mais de 50 unidades, distribuídas em 12 estados, mobilizando quase 20 mil trabalhadores.

Coincidentemente, nos três casos citados, esta sexta-feira (7) será um dia decisivo. Para os trabalhadores do Dataprev, porque provavelmente começarão as negociações; para os moedeiros, porque realizam nova assembleia; para os petroleiros, porque farão um grande ato no Edifício Sede da Petrobras (EDISE), buscando pressionar o governo para que a pauta de reivindicações seja atendida, com o desafio de manter a adesão e a força do movimento.

Na verdade, contudo, nos próximos dias não estarão em jogo apenas as pautas específicas destas categorias e outras, como servidores públicos federais, trabalhadores dos Correios e da Educação, que planejam ações para fevereiro e março. A questão assume um caráter mais amplo, qual seja, a possibilidade de impor derrotas concretas ao governo e seu projeto de demissões em massa, privatizações e retirada de direitos. Com efeito, na atual conjuntura, cada pequena derrota imposta aos inimigos nas lutas de classes é importante no sentido de abrir espaço para que os próximos passos sejam de vitórias significativas dos trabalhadores.

Nesse sentido, as tarefas básicas de todos os militantes sindicais classistas consistem em: 1) Engajar-se profundamente nas lutas em curso, promovendo a mais ampla solidariedade às categorias em movimento; 2) Contribuir para a radicalização, politização e unificação das greves e paralisações, alertando para a necessidade das bases assumirem cada vez mais protagonismo no processo e para o caráter limitado da maioria das direções sindicais no país; 3) Contribuir para que categorias estratégicas que ainda estão mais ou menos alheias à atual necessidade de mobilização se incorporem o quanto antes na luta para garantir direitos, ampliar conquistas e construir uma nova correlação de forças.  

Trabalhadores em luta mostram que virar o jogo é possível